Quando a Serasa encontra o Facebook

Por Guilherme Damasio Goulart

O que aconteceria se as empresas de databrokers, como a Serasa Experian, compartilhassem dados com o Facebook? E se dados de atividades off-line, como compras que você faz em lojas físicas, supermercados, contas que paga, livros que compra, tipos de roupas e produtos que compra, também fossem integradas com os dados do Facebook? E se o Facebook também soubesse dados mais aleatórios sobre você, sobre renda, preferência por carros e quantas pessoas moram no mesmo endereço?

Pois bem, a Serasa Experian é “marketing partner” do Facebook. Sim, você leu as palavras “Serasa” e “Facebook” na mesma frase. Isso significa que é possível relacionar informações que a Serasa possui sobre você com as suas informações no Facebook. Segundo o próprio site, é possível “Encontrar novos consumidores no Facebook utilizando dados da Serasa Experian”.

É verdade que a Serasa não é o único “marketing parnter” do Facebook. São centenas de empresas no mundo todo (você pode ver a lista aqui). Só no Brasil são 23 empresas. Na realidade, todas elas são multinacionais que atuam em nível global e que também atendem ao Brasil. Muitas delas pertencem à categoria de “Ad Technology” e são absolutamente desconhecidas do grande público. Isso não significa, por outro lado, que elas não conheçam todo mundo. As empresas de Ads, ou Advertising, ou publicidade, junto com as empresas que fazem o tracking de atividades, ficam recolhendo dados pessoais de diversas fontes por toda a Internet. Um grande campo de atuação dessas empresas é o ambiente mobile. Assim, algumas das atividades realizadas na maioria dos aplicativos móveis são compartilhadas com tais empresas. Elas passam, assim, a montar perfis das pessoas que são vendidos para outras empresas (muitas dessas, os chamados databrokers). É por meio dessa dinâmica que muitos dados chegam até o Facebook. Além dos dados que as pessoas voluntariamente fornecem ao Facebook, este ainda tem acesso aos dados que as pessoas involuntariamente fornecem. É por isso que você passa receber certos tipos de publicidade, em vários aplicativos, logo após digitar uma palavra em um aplicativo ou pesquisar algo no smartphone.

Portanto, a principal questão é: o que a Serasa informa para o Facebook? A lista é grande e envolve, entre outras coisas:

  • O carro que você possui;
  • Se você é dono/sócio de empresas e qual o ramo de atuação;
  • Categorias sazonais, ou seja, se você está passando por uma data comemorativa ou acontecimento relevante (se teve filho, por exemplo).
  • Classificação de consumidor (faixa de consumo, que leva em conta, segundo eles, “conceitos de sociologia e variáveis demográficas e socioeconômicas”);
  • Quantas pessoas moram no mesmo endereço que você;
  • Modelos de afinidade (mais uma vez, baseados em variáveis demográficas e de comportamento);
  • Potencial de compra (os tipos de produtos que compra e se você tem potencial para comprar este ou aquele produto on-line);
  • Potencial de crédito;
  • Perfil profissional;
  • Renda;
  • Dados do sistema Mosaic;

Quando se fala em afinidade, é possível descobrir se você tem afinidade com: bens de luxo, cartão de crédito premium, casa própria, e-commerce, investimento financeiro, previdência privada, seguro residencial, seguro saúde, seguro de vida, turismo, TV a cabo, transporte público, setor imobiliário, financiamento de veículo, frequência a cinemas, produtos fitness, seguro auto, empréstimo, jogos online, leitura digital, early adopters, potencial de resgate de milhas, etc. Há categorias especiais bastante interessantes. A Serasa conta para o Facebook, por exemplo, se você teve acesso ao benefício de saque do FGTS (das contas inativas). Se adicionada a todas as informações anteriores, a questão do saque do FGTS serve como um gatilho importante para oportunidades de vendas de alto valor.

Os potenciais de compra envolvem, também, o que eles chamam de “dados transacionais”, ou seja, a análise do que você compra. Isso mesmo! Gera-se um perfil sobre suas compras feitas fora da Internet e isto é utilizado para ampliar as vendas de produtos dentro do Facebook.

Não que o Facebook já não saiba algumas dessas informações. O problema começa a ocorrer quando um terceiro recolhe e concentra dados de diversas atividades off-line, muitas vezes sem o conhecimento e consentimento dos sujeitos. Além da falta de conhecimento e consentimento, no que se refere aos dados off-line, certamente eles não foram recolhidos para esta finalidade (ampliar a base de dados do Facebook). Isso significa que os dados passam a ser usados para finalidades não previstas pelos sujeitos. De repente, alguém comprou um celular, artigos esportivos, ferramentas, um tipo de vestuário específico, utilidades domésticas, tudo isso fora da Internet, e uma empresa recolhe tais informações e as repassa para o Facebook. E o pior: não há como você impedir que essas informações off-line sejam utilizadas pelo Facebook.

Tais atividades, em face de seu caráter não ostensivo, têm um grande potencial de violar a privacidade dos sujeitos. Dados estão sendo usados, cada vez mais, para atividades absolutamente ignoradas pelas pessoas. O monitoramento e a vigilância das práticas cotidianas, antes realizadas apenas nos ambientes digitais, estão se expandindo também para a vigilância de práticas no mundo físico. Sem que as pessoas saibam, perfis seus estão sendo gerados com base na vigilância de praticamente todas as atividades realizadas. O descontrole desses recolhimentos tem um grande potencial de discriminação e de violação da privacidade.

Não há, é necessário dizer, um direito absoluto e ilimitado das empresas utilizarem os dados da forma que bem entenderem. Há princípios jurídicos, que emanam tanto do Direito Civil quanto do Direito do Consumidor, que estabelecem limites para o uso de dados pessoais. A doutrina brasileira já reconhece tais princípios que, inclusive, estão dispostos no Projeto de Lei de Proteção de Dados Pessoais (PL 5276/2016). O direito de autodeterminação informativa garante às pessoas o exercício do controle sobre os próprios dados, direito este que não é garantido nas práticas aqui descritas.

Tudo isso não é novidade, infelizmente. É assim que funciona o ecossistema de publicidade na Internet. A novidade, e o problema, pelo menos do ponto de vista de proteção de dados pessoais e de proteção da privacidade, é o Facebook firmar parcerias com empresas que recolhem dados de fora da Internet. Eu já apontei alguns desses riscos e problemas no artigo “Por uma visão renovada dos artigos de consumo”, publicado na Revista de Direito do Consumidor, volume 107, em 2016.

Sobre o assunto, sugiro, por fim, o episódio ep. 52 do podcast Segurança Legal – Databrokers, Privacidade e Discriminação.

6 comentários em “Quando a Serasa encontra o Facebook

  1. É muito preocupante esse assunto ser tão pouco discutido e divulgado. Além do óbvio resultado de potencializar o consumismo com anúncios irresistíveis, essa convergência é preocupante porque faz um conjunto de grupos empresariais saberem muito bem o que a população quer ouvir. Isso pode ser usado nocivamente na política, por exemplo.

    Ótimo texto!

  2. Guilherme,
    Parabéns mais uma vez pelas informações valiosas e por jogar luz em um problema pelo qual passamos, voluntária ou involuntariamente. Sempre tive, ou tentei ter, muito cuidado em relação à divulgação dos meus dados no mundo digital, mas nesse caso sinto que consigo me proteger muito pouco, já que em praticamente todo o meu consumo utilizo meios eletrônicos de pagamento.
    Muito obrigado mais uma vez.

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